Carta de apoio

Li o manual e logo identifiquei as questões que imaginei que seriam tratadas pela nota que vocês escreveram. Gostaria de dizer que fiquei feliz em saber que existe um grupo de gênero no curso de Direito, especialmente quando vemos constantemente serem reproduzidos determinados valores e ideais a partir de uma profissão elitista no Brasil desde o império. E por elitista, não me refiro apenas à elite econômica, refiro-me aos que sempre dominaram a classe profissional dos advogados, se fazendo representar nos escritórios de advocacia, fóruns, cartórios, enfim. Não se trata obviamente de uma competição, como muitos afirmam, como se as mulheres quisessem ser mais importantes ou dominar mais. O pensamento tacanho sempre faz a gente se prender às exceções, temos uma ministra do supremo que é mulher, temos várias ministras designadas que são mulheres, temos uma presidenta mulher. Prendendo-nos às exceções, fica fácil a tentativa de ridiculizar o posicionamento de vocês.

Ainda bem que nós não nos prendemos à exceção. Nós sabemos que nossas empregadas domésticas são mulheres, que nossas babás são mulheres, que nossas funcionárias de serviços gerais são mulheres. Professoras, psicólogas, nutricionistas, assistentes sociais, fisioterapeutas também são. E será por acaso que essas profissões são tão mal remuneradas?

Nós sabemos também que as mulheres morrem quando se recusam a se colocarem no papel de objeto que esse manual, que julga ser engraçado, as coloca. Eu desafio os acadêmicos a rirem de outras coisas. Eles ririam do acontecimento ocorrido no carnaval, em que um homem matou uma mulher com um tiro na cabeça porque ela reagiu ao assédio dele? Se não ririam, passaria pela cabeça deles que se ela tivesse cedido, ou pelo menos ignorado (como a gente aprende desde pequena), ela não teria morrido? Se a resposta foi sim, vamos pensar sobre o seguinte: a violência contra a mulher e a subjugação dela acontece em diferentes níveis, em diferentes graus. Devemos considerar esse manual um grau leve de violência? Um grau médio?

Talvez um grau leve de violência seja ensinar as meninas a ignorarem o assédio, porque assedia quem pode e ignora quem tem juízo. Talvez um grau leve seja relacionar a mulher a todas as prendas domésticas. Será? Qual o grau de violência deste manual? Difícil dizer. Mas uma coisa a dizer é que é assustador pensar que essas pessoas podem estar sentadas em locais de entrada às mesmas mulheres, mães, irmãs, amigas, empregadas das mulheres e dos homens que ajudaram a elaborar as palavras travestidas de humor, que, agredidas, violentadas, assediadas, um dia possam procurar ajuda.

A violência contra a mulher quando vem de outra mulher é duplamente atroz. Porque ela reitera, reforça e dá ensejo ao direito de objetificação. Se me entristeço é porque, como psicóloga, cansei de ouvir relatos de mulheres maltratadas dentro dos serviços públicos. Os nobres colegas (não é assim que os advogados referem-se uns aos outros?) acham engraçado uma mulher ser desprezada em um boletim de ocorrência? Ser maltratada quando não levam adiante a representação? Ser humilhada ao ter que esperar dois dias sem tomar banho por uma perícia porque tiveram azar duas vezes: a primeira pela violência sofrida em seus corpos, a segunda porque era domingo e não puderam fazer a perícia. Violentadas em seus corpos, em sua sexualidade, em seu papel social.

É preciso nos colocarmos todos como agentes dessa violência. É preciso entender que o motivo do nosso riso, em um grau maior, é motivo de lágrimas de alguéns. Muitos alguéns. Entendamos que a violência contra a mulher é uma questão de grau para, só assim, entendermos que em pequenos gestos ajudamos a questioná-la. Um gesto como não rir desse manual,  como o de que não redigir tais palavras.

É simples? Parece. Mas quando foi simples desestruturar dominações edificadas?

Muito obrigada por compartilhar.

Angela Cristina da Silva, psicóloga e professora nos cursos de Direito e Psicologia na Faculdade Campo Real em Guarapuava.

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Carta de apoio

  1. Parabéns pela coragem companheiras. As ditas brincadeira são um dos principais meios de reprodução do machismo. Vide o quadro do Zorra Total, onde por brincadeira, se faz graça com uma mulher sendo abusada sexualmente (valéria e janete). O machismo está presente, também, de forma inocente, na propaganda da Sky, onde mostra um folgado pedindo pra mulher uma cerveja, enquanto essa abaixada de quatro, limpa o chão da cozinha. Nada mais detestável. É isso ai. A cada agressão machista, vamos reagir!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s