Nota do Grupo de Gênero sobre a matrícula dxs calourxs 2013

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O Grupo de Gênero do curso de direito surgiu em 2010, com a ideia inicial de estudar o tema, impulsionado pela percepção de que o ambiente machista e heteronormativo da faculdade exigia respostas. Desde então, muitos debates, ciclos de estudos e mobilizações foram promovidos, e pudemos deixar patentes algumas reivindicações e pautas dos movimentos feministas e LGBT*. Embora já com todo esse histórico, sabemos que os debates devem ser renovados e refeitos, não só para que todxs possam ter acesso a eles, mas também porque certas práticas insistem em se repetir. Nesse sentido, achamos necessário tornar público fatos e reflexões referentes à matrícula/trote dxs calourxs, que aconteceu durante o dia 29/01.

“Mas é um rito de passagem!”

Diz-se que o trote é ritual de passagem, de inserção dx estudante no ambiente universitário. Até aí tudo bem, mas se seu propósito é de socialização, esta inclusão não pode se dar a partir da submissão dxs novxs estudantes a uma situação humilhante ou constrangedora. Em relação a isso, dirão com certeza que o/a estudante tem a opção de não participar, que não forçaram ninguém a fazer nada. Ao que responderemos que é mentira. Primeiro, devemos frisar a dificuldade dxs calourxs de se negar a participar do trote por se sentirem acuadxs para tanto. Segundo, porque mesmo estudantes que afirmaram taxativamente não querer participar levaram ovadas de integrantes da bateria.
Ainda sobre as ovadas e bebidas, devemos notar que a sujeira (que não era pouca) ficou esparramada pela calçada e escadaria depois da nossa festa, para que as mulheres trabalhadoras que cuidam da limpeza da faculdade dessem um jeito na bagunça dos outros, fazendo um serviço para o qual elas não foram contratadas.
Além disso, não poderíamos deixar de afirmar mais uma vez o caráter ofensivo, machista e homofóbico das músicas tocadas pela bateria, que apresentam a mulher e os homossexuais em uma posição de inferioridade, sempre objetificada.

“Mas eu não me ofendi!”

Não é essa a questão. Toda a vez que esse debate ocorre, surgem alguns que dizem não se ofender com o conteúdo discriminatório das músicas e de tais atos. No entanto, mesmo que apenas uma mulher ou somente um homossexual se sintam ofendidos, nossas críticas já seriam cabíveis. Quando se repetem coisas como “Chupa meu pênis, igual chupa caju, Ô pucquiana você quer me dar o cu” ou “borracho chupador”, há a desculpa de que, neste contexto, tais coros perderiam a conotação ofensiva e política que pudessem ter. Porém, sabe-se que estes coros reproduzem estereótipos que estão inculcados no senso comum de uma sociedade opressora, reforçando-os. Assim, desvalorizam e desrespeitam as mulheres e a orientação sexual das pessoas. Por essa razão nos ofendemos e afirmamos que somos contra os trotes machistas e homofóbicos, como o do dia 29/01 deste ano.

 A Complacência da Instituição

Por outro lado, a direção da faculdade e a gestão do Centro Acadêmico mostraram-se complacentes em relação às expressões de opressão de gênero na faculdade, ao serem vagarosos e/ou recomendarem discrição para aluna que buscava medidas em relação ao constrangimento que sofrera durante o trote. Essa postura não foi diferente de outras ocasiões, em que observamos o esforço das instâncias representativas e da administração em tratar desses problemas com a lógica familiar da esfera privada: “deixemos isso entre as quatro paredes”.

Inclusive, a própria universidade colabora para um ambiente em que a vontade de cada um não é respeitada, uma vez que, após o registro acadêmico, não dá ao calouro a opção de sair por outra porta (por exemplo, a entrada principal, na Praça Santos Andrade) onde ele não passe pela recepção dos veteranos, fazendo com que ele tenha de passar pelo corredor de alunos que estarão aplicando o trote.

Insistimos que o machismo, a homofobia, e também o racismo, devem ser tratados como questões públicas e sociais que não se reduzem a episódios pontuais e a exceções à regra, como muitas vezes nos querem fazer crer. Trata-se de opressões estruturantes de nossas instituições e de nossas práticas, de forma que devem ser sempre apontadas para que não se diluam em nossa rotina, banalizando-se.

A “patrulha ideológica” feminista

Para muitxs, à primeira vista, essa discussão parece ser de uma importância menor, ou ainda, pode parecer que estaríamos realizando uma forma de censura ou um patrulhamento em relação à livre expressão das pessoas. Afinal, é uma brincadeira, e mesmo que se tratem de conteúdos ofensivos e violentos, as pessoas não pregam realmente tais posturas para suas vidas.

Frisamos que todos os discursos, inclusive o que se pretende não-sério, carregam significados e reproduzem ideias que se objetivam em práticas. O efeito das brincadeiras e de algumas músicas entoadas pela bateria e por muitxs estudantes é corroborar com a opressão. Por outro lado, para aqueles que reivindicam a democracia para afirmar que podem dizer o que bem entendem, respondemos que terão de ouvir o que não desejam. Não estamos proibindo que falem qualquer coisa, mas todo aquele/a que fala deve arcar com a responsabilidade de fazê-lo.

Avançar no debate sobre a opressão de gênero é preciso para então poder superá-lo. O machismo, o racismo e a homofobia não passarão!

* O histórico de denúncias e lutas do GG pode ser acompanhado na íntegra em nosso blog: https://grupodegenero.wordpress.com/

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