Abre alas que vamos passar: nasce o Coletivo Feminista Iara!

Feminismo hoje?

O senso comum afirma que o feminismo é um debate datado, dado que com a inserçãofemgdg no mercado de trabalho, as mulheres teriam alcançado a almejada igualdade. Outros afirmam ainda que o questionamento da desigualdade de gênero implicaria na violação de valores tradicionais que devem ser preservados e que as mulheres devem permanecer em seus devidos lugares, ou seja, em casa ou em profissões de um suposto caráter feminino, com o devido recato ao vestir-se e em seu linguajar.

À opressão que subjuga o gênero feminino, subordinando-o ao masculino, chamamos machismo. E diga-se o que quiser sobre a “evolução” dos direitos das mulheres, o fato é que ele ainda existe com diversas formas e intensidades.

Um coletivo Feminista na Faculdade de Direito!

Em meio ao burburinho político da Faculdade de Direito da UFPR, muitas coisas acontecem. Partidos políticos e coletivos se degladiam ao longo de todo o ano, usando de toda a astúcia para conseguirem se sobressair nos espaços de debate e representação e terem a palavra final. Em meio a tudo isso, um grupo de mulheres decidiu formar um Coletivo Feminista dentro da própria faculdade. A pergunta é: por que criar mais uma entidade política em um contexto tão turbulento que é o nosso curso, no qual as hostilidades ideológicas comprometem relações pessoais, além da própria experiência acadêmica?

A resposta começa com o Grupo de Gênero, que foi criado em 2010 para debater e aprofundar temas como sexualidade, gênero e opressões (sexismo, racismo, homofobia, etc.) dentro da faculdade. Dentro dele, foi constada a necessidade de se ter um outro espaço no qual fosse articulada a atuação política, e assim as opiniões e demandas do Feminismo pudessem ser expostas nos espaços políticos.

A partir dessa idéia e de algumas reuniões, foi criado o Coletivo Feminista da faculdade. A sua importância também fica patente quando analisamos o contexto específico do Curso de Direito e, mais ainda, do Curso de Direito da UFPR. O primeiro entendimento necessário é o de que o Direito depende da Política, pois as decisões que são tomadas dentro dele (e que o definem) são, quase sempre, motivadas politicamente. Dessa forma, quando alguém se coloca em um espaço, essa pessoa está influenciando o processo decisório, sendo fundamental que grupos interessados em ter seus direitos reconhecidos exponham seus argumentos e posições em locais de visibilidade.

No entanto, a tradição do Direito em grande parte exclui as mulheres, uma vez que, na maioria das vezes, quem compõe os espaços políticos são homens. Isso acontece, em grande medida, porque a educação feminina é voltada para o ambiente doméstico, sendo difícil que mulheres sejam estimuladas para que desenvolvam habilidades como, por exemplo, a oratória, e se coloquem em locais de publicidade.

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Ato contra o machismo na universidade impulsionado pelo grupo de gênero em razão do manual machista publicado por grupo político na faculdade de direito da UFPR

Além disso, na Faculdade de Direito da UFPR, existem muitos casos nos quais mulheres foram ou se sentiram injustiçadas, sendo comuns provocações e piadinhas em situações que deveriam ser sérias. No entanto, as mulheres articuladas têm força para se manifestar contra essa exclusão e as pequenas e grandes agressões sofridas, que muitas vezes vêm revestidas com caráter de naturalidade ou humor, mas que, se analisadas, são exemplos do machismo que ainda persiste.

Somente a partir de muito esforço, nós, mulheres, conseguiremos romper com a violência, física ou mental, pequena (como trotes abusivos e manuais do calouro indecorosos) e grande etc.; além de termos nossos direitos assegurados e necessidades supridas. No entanto, isso só acontecerá quando realmente nos fizemos representar, e isso deve ser feito por nós mesmas.

Auto-organização das mulheres para avançarmos na construção do feminismo para todxs!

Muitas e muitos questionam a auto-organização*, afirmando que ela seria prejudicial para uma pauta que se pretende de todxs. Então qual é a sua importância? Trata-se de um método de organização pensado para potencializar a intervenção das mulheres a partir do reconhecimento de que compartilhamos uma experiência socialmente comum e historicamente situada, ou seja, somos objetivamente e subjetivamente oprimidas e exploradas por nossa condição de gênero. Partindo dessa experiência comum, que se expressa desde uma educação familiar e escolar que ensina a reprimir nossa sexualidade, a nos afastar dos espaços públicos e dos espaços de poder, à submeter nossos corpos ao julgo de padrões intangíveis, até termos ainda salários mais baixos em relação ao salário dos homens e termos menor representatividade no congresso, mesmo que sejamos mais de 50% do eleitorado.

A auto-organização de mulheres significa transformarmos essa experiência de427515_248403005250877_100002435378400_535754_347079458_n opressão comum em um agir coletivo direcionado a sua superação. Isso não significa que tal agir se estruture contra os homens e que nos enclausuraremos em debates de comadres. Longe disso. Sabemos que o machismo é uma opressão que está nas bases de nossa sociedade e, portanto, é reproduzida por homens e mulheres, oprimindo a todxs. Ainda assim, as mulheres como gênero subordinado são necessariamente os sujeitos necessários da superação. Em um mundo machista e em um universo político majoritariamente dominado por homens brancos e heterossexuais, a simples presença de mulheres organizadas pela igualdade significa já romper com padrões opressores.

Por que Coletivo Iara?

Primeiramente em referência à feminista Heleieth IARA Bongiovani Saffioti, uma professora militante feminista e marxista brasileira. Iara, pioneira no debate das questões e violências de gênero, foi crucial para a análise da condição da mulher na sociedade de classes, travando pela primeira vez as intersecções de opressões de classe, raça e gênero no Brasil. Evidenciou, em particular, as relações existentes entre a posição da mulher e o capitalismo e através da perspectiva marxista. Reiterou sempre a necessidade da libertação coletiva de mulheres e homens não somente da sociedade patriarcal e machista, mas também das prisões do capitalismo desigual. Após todo o histórico como socióloga também se formou em Direito no final do auge de suas produções acadêmicas, com o objetivo de defender as vítimas de agressão e violência. Apesar disso, nunca chegou a exercer a profissão.

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A feminista H. Iara Saffioti

Saffioti permanece não somente como um marco teórico do Grupo de Gênero fundado em 2010 na faculdade de Direito da UFPR, mas também para o pensamento e a prática feministas no Brasil. Faleceu no fim do mesmo ano, deixando um importante legado para a luta das mulheres. Assim, seu nome foi dado ao coletivo que começa a se organizar na faculdade a partir do fim de 2012, como uma homenagem póstuma à lutadora feminista.

Seu aporte marxista permite o reconhecimento da historicidade de suas obras, por isso, a homenageamos pautando sua importância histórica aos movimentos feministas brasileiros, sem nos vincularmos a todas suas posições políticas, em que algumas representam o acúmulo feminista de décadas passadas como, por exemplo, seu posicionamento sobre a prostituição.

E o mito da malévola Iara?

528157_326681950751381_220609119_nQuando levantamos a hipótese de nos denominarmos “Iara” surgiu o questionamento acerca do mito da Iara, figura que se aproxima da sereia e encanta os homens para depois devorá-los. Reivindicar tal nome não seria então, de alguma forma corroborar o estigma do feminismo como simples contrário do machismo? Acreditamos que não.

A lenda da Iara parte de um estereótipo muito reproduzido em nossa sociedade, o da “mulher devassa”. Eva, Iara, Sereias, Vadias, etc. A maioria das figuras femininas que nos remetem imediatamente à sexualidade desvinculada da reprodução e à volúpia feminina são estigmatizadas logo pela característica da perversão, pela malícia da qual devemos desconfiar. Eva mordeu o fruto, a beleza de Iara é enganadora. Até (ou talvez, sobretudo) em nossos mitos as limitações às mulheres e sua estigmatização dentro de padrões definidos estão presentes. Assim, reivindicamos o mito para ressignificá-lo. Iara era apenas uma moça que se banhava nua – e a nudez não é necessariamente um convite ao sexo. Caso tenham se afogado é porque não sabiam nadar.

*A auto-organização diz respeito a grupos, coletivos ou instâncias deliberativas nas quais participam e deliberam apenas os sujeitos identificados com a problemática em questão, assim coletivo em questão diz respeito a um grupo auto-organizado de mulheres.

Reunião de apresentação e venda de apostilas dia 24/04 ao meio-dia! Na subsede do CAHS!

  

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